quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Espírito de Porco Jaz

À um moribundo

Homem de fluidos, gordura e desejo
Animal forte de carne fraca
Uma vida curta de longas noites em claro
Quem pode julgá-lo?

As golfadas de bile sobem queimando 
As costas morenas curvadas em espasmos
O gemido cansado da dor muscular
O preço ainda é baixo.

Janela

A cada 10 minutos uma avião cruza a janela com seu fôlego alto e pesado. Metade da copa de uma arvore, o lado de um prédio de quatro andares e o topo do que parece uma ponte dividem espaço na janela. As folhas acenam  no vento. As janelas denunciam presenças. No meio delas o cimo da ponte. Céu e silêncio. O barulho atravessa as paredes, mas a árvore, as janelas e a ponte são só silêncio. Nuvens e silêncio. Livre, solitário e quieto. Nas nuvens um colibri de vapor. Eternamente emoldurado, durante alguns segundos.

domingo, 8 de setembro de 2013

Persona non grata

Um mosquito me picou ontem.
Suas pernas não tinham pintas brancas.
Sua cor não era pálida.
A picada não me deixou doente.
A fêmea que me sugou nasceu no máximo há trezentos metros de distância de onde eu estava.
O maldito inseto vive apenas um mês.
Penetrou na minha vida e na minha pele por pouquíssimo tempo.  
Ouvi suas asas batendo mil vezes por segundo. Ela veio e me roubou todo sangue que queria, marcando meu couro com a boca afiada.
Sua baba tóxica me incomodará por dias.
A maldita picada coça.
Com a unha raspo o ponto e cavo na carne sem cavar. Alargo o ponto.
Lembro da língua ingrata que me pagou com dor a vida que tomou de mim.
A delícia de alargar a ferida coçando me assusta. Não tocar parece impossível.
Alcool ajuda a ignorar. Não por muito tempo.
Tantos mosquitos ainda posso adivinhar penetrando em meu caminho.
Minha existência fugaz fadada à dor e ao estranho prazer dela desprendido - de novo e de novo.
Comichões destinados ao limbo do esquecimento como se nunca tivessem existido.
No derradeiro filme nenhuma picada ocupará cena. Talvez a lembrança indiferente do ruído de asas indistintas assopre ao fundo.
Um pernilongo fêmea comum me picou. Em alguns dias a existência dessa vida na minha história será apagada para sempre.

Mas até lá, como coça!

sexta-feira, 9 de agosto de 2013





Amarração forte no amor
Em todos os postes em SP.
Ninguém quer dormir sozinho
Na cidade que não dorme.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

De brinquedo


  Isso tudo se passou há algum tempo, na época em que todo brinquedo carregava um pedacinho de quem o construiu e durava muito mais que um fim de semana.
 
   Em uma linda casa, rodeada por um imenso jardim, havia um quarto no fim do corredor. Este quarto era coberto por papel de parede azul e cor de rosa. Era mobiliado com tudo que convém a um quarto que é partilhado por um menino e uma menina. Na parede do fundo, sob uma grande janela com cortinado branco, havia um baú destinado a guardar os cobertores pesados de inverno. Sobre o tampo do baú, descansava um simpático casal de brinquedos: um urso de pelúcia e uma bailarina.
 
   O urso tinha a pelagem avermelhada, lindos olhos de vidro negro e, sempre sentado, trazia os bracinhos gordos abertos como esperando um abraço que nunca chegava. A bailarina trazia o corpinho de pano coberto por um delicado vestido branco. Seu rostinho de porcelana tinha as bochechas coradas, os lábios vermelhos e os olhos azuis, quase cinza. O cabelo escuro caía-lhe em cachos, contrastando com sua alvura e os bracinhos magros, erguidos em forma de arco sobre a cabeça, conferiam-lhe a pose das bailarinas.
 
   Durante uma noite muito quente, uma criaturinha mágica e entediada, passou pelo quarto daquelas crianças e assoprando sobre o urso e a bailarina deu-lhes vida. Ao vê-los despertar, confusos e admirados, contou-lhes o que fizera e pouco antes de sumir numa nuvem, disse que o encanto só duraria até o amanhecer.
 
   A bailarina, de um salto pôs-se a dançar. Rodopiava lépida, fazendo o vestido rodado subir. O urso, desajeitado, tentava se levantar, mas logo caia sentado. Enquanto lutava contra os bracinhos curtos novamente, sentiu um par de mãozinhas que o ajudaram a enfim se por de pé. Olhou para a bailarina e a agradeceu sem palavras. Ela, entendendo-lhe a mãozinha mais uma vez o convidou para dançar.
 
   O urso dançava com pouca graça e acabava caindo enquanto tentava, em vão, acompanhar a parceira que ria sem ruído e o punha de pé quantas vezes ele caísse. Quando, enfim se cansaram, a bailarina sentou-se ao lado do urso e, como não podiam falar, ficaram a contemplar-se durante um longo tempo. Muito devagar, a bailarina se levantou e envolveu o urso com seus bracinhos. Ele, no júbilo daqueles que enfim recebem o que sempre esperaram, estreitou-a junto ao corpinho peludo.
 
   Durante aquele abraço, um estranho calor aqueceu os brinquedos e ao mesmo tempo em que eram tomados por imensa alegria, torturava-lhes a idéia do fim certo que viria assim que o primeiro raio de sol despontasse. Olharam-se.
 
   Quando veio a manhã, o mesmo ser encantado que havia visitado aquele quarto durante a noite, retornou a casa e sorriu consigo quando tudo que encontrou dos dois brinquedos foi um par de esferas de vidro negro entre as cinzas da lareira. Com uma lágrima nos olhos, guardou as pequenas gotas de vidro no bolso do casaco e desapareceu.
 
   Naquele dia, quando as crianças procuraram pelos brinquedos desaparecidos, não encontraram nada, nem os pequenos cacos de porcelana entre as cinzas da lareira. Sequer perceberam o cheiro de tecido queimado que dominava a casa naquela manhã.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Mancha roxa

Você vem e marca minha carne e a minha memória.
"Eu você nós dois, já temos um passado meu amor."
Sua boca vai da minha testa ao meu sexo e eu não sei onde eu te quero mais.
Você crava o dentes com raiva no meu corpo seco e suculento. Me pune pela sua ausência. Carimba sua saudade dura e inconfessável.
Eu digo não e você faz brotar a força meu desejo.
A dor estrala vermelha no meu rosto quente e macio e você se despede.

Nas minhas coxas o seu retrato se demora e eu não fico nua sem meu olhar pousar na sua gula.
Eu olho e não consigo ficar sem provocar a dor.
Quando some à vista já é dia de você voltar.
Teodora tinha um peixinho dourado.
Tinha também muita fome de abraço.
O peixinho, gelado, escorregava dos seus carinhos.
Teodora tinha que apertar com cuidado até ele parar quieto.
Até que não precisou mais.