Isso tudo se passou há algum tempo, na época em que todo brinquedo carregava um pedacinho de quem o construiu e durava muito mais que um fim de semana.
Em uma linda casa, rodeada por um imenso jardim, havia um quarto no fim do corredor. Este quarto era coberto por papel de parede azul e cor de rosa. Era mobiliado com tudo que convém a um quarto que é partilhado por um menino e uma menina. Na parede do fundo, sob uma grande janela com cortinado branco, havia um baú destinado a guardar os cobertores pesados de inverno. Sobre o tampo do baú, descansava um simpático casal de brinquedos: um urso de pelúcia e uma bailarina.
O urso tinha a pelagem avermelhada, lindos olhos de vidro negro e, sempre sentado, trazia os bracinhos gordos abertos como esperando um abraço que nunca chegava. A bailarina trazia o corpinho de pano coberto por um delicado vestido branco. Seu rostinho de porcelana tinha as bochechas coradas, os lábios vermelhos e os olhos azuis, quase cinza. O cabelo escuro caía-lhe em cachos, contrastando com sua alvura e os bracinhos magros, erguidos em forma de arco sobre a cabeça, conferiam-lhe a pose das bailarinas.
Durante uma noite muito quente, uma criaturinha mágica e entediada, passou pelo quarto daquelas crianças e assoprando sobre o urso e a bailarina deu-lhes vida. Ao vê-los despertar, confusos e admirados, contou-lhes o que fizera e pouco antes de sumir numa nuvem, disse que o encanto só duraria até o amanhecer.
A bailarina, de um salto pôs-se a dançar. Rodopiava lépida, fazendo o vestido rodado subir. O urso, desajeitado, tentava se levantar, mas logo caia sentado. Enquanto lutava contra os bracinhos curtos novamente, sentiu um par de mãozinhas que o ajudaram a enfim se por de pé. Olhou para a bailarina e a agradeceu sem palavras. Ela, entendendo-lhe a mãozinha mais uma vez o convidou para dançar.
O urso dançava com pouca graça e acabava caindo enquanto tentava, em vão, acompanhar a parceira que ria sem ruído e o punha de pé quantas vezes ele caísse. Quando, enfim se cansaram, a bailarina sentou-se ao lado do urso e, como não podiam falar, ficaram a contemplar-se durante um longo tempo. Muito devagar, a bailarina se levantou e envolveu o urso com seus bracinhos. Ele, no júbilo daqueles que enfim recebem o que sempre esperaram, estreitou-a junto ao corpinho peludo.
Durante aquele abraço, um estranho calor aqueceu os brinquedos e ao mesmo tempo em que eram tomados por imensa alegria, torturava-lhes a idéia do fim certo que viria assim que o primeiro raio de sol despontasse. Olharam-se.
Quando veio a manhã, o mesmo ser encantado que havia visitado aquele quarto durante a noite, retornou a casa e sorriu consigo quando tudo que encontrou dos dois brinquedos foi um par de esferas de vidro negro entre as cinzas da lareira. Com uma lágrima nos olhos, guardou as pequenas gotas de vidro no bolso do casaco e desapareceu.
Naquele dia, quando as crianças procuraram pelos brinquedos desaparecidos, não encontraram nada, nem os pequenos cacos de porcelana entre as cinzas da lareira. Sequer perceberam o cheiro de tecido queimado que dominava a casa naquela manhã.