domingo, 8 de setembro de 2013

Persona non grata

Um mosquito me picou ontem.
Suas pernas não tinham pintas brancas.
Sua cor não era pálida.
A picada não me deixou doente.
A fêmea que me sugou nasceu no máximo há trezentos metros de distância de onde eu estava.
O maldito inseto vive apenas um mês.
Penetrou na minha vida e na minha pele por pouquíssimo tempo.  
Ouvi suas asas batendo mil vezes por segundo. Ela veio e me roubou todo sangue que queria, marcando meu couro com a boca afiada.
Sua baba tóxica me incomodará por dias.
A maldita picada coça.
Com a unha raspo o ponto e cavo na carne sem cavar. Alargo o ponto.
Lembro da língua ingrata que me pagou com dor a vida que tomou de mim.
A delícia de alargar a ferida coçando me assusta. Não tocar parece impossível.
Alcool ajuda a ignorar. Não por muito tempo.
Tantos mosquitos ainda posso adivinhar penetrando em meu caminho.
Minha existência fugaz fadada à dor e ao estranho prazer dela desprendido - de novo e de novo.
Comichões destinados ao limbo do esquecimento como se nunca tivessem existido.
No derradeiro filme nenhuma picada ocupará cena. Talvez a lembrança indiferente do ruído de asas indistintas assopre ao fundo.
Um pernilongo fêmea comum me picou. Em alguns dias a existência dessa vida na minha história será apagada para sempre.

Mas até lá, como coça!

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